Pessoa lendo apólice de seguro de vida em casa, avaliando as coberturas do contrato
O seguro de vida em vida paga indenização ao próprio titular, não apenas em caso de morte.

Quando alguém ouve "seguro de vida", a associação automática costuma ser a mesma: um valor que a família recebe depois que o titular morre. Só que isso pode estar com os dias contados. Cada vez mais apólices vendidas no Brasil hoje funcionam de um jeito diferente: pagam em vida, direto para quem contratou, assim que é confirmado o diagnóstico de uma doença grave ou a ocorrência de um acidente com sequela importante. Isso está mudando o cenário do mercado de seguros no país.

Esse formato, chamado de seguro de vida em vida ou cobertura para doenças graves, está entre as modalidades que mais crescem no país. Segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), os prêmios dessa categoria tiveram alta de 18,1% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior. Neste artigo, você vai entender como funciona, quanto custa e como contratar. Também ouvimos três pessoas com experiências bem diferentes sobre o tema: quem vende, quem emprega e quem é servidor público.

O que é o seguro de vida em vida, na prática

No modelo tradicional, a seguradora só libera o capital contratado depois do falecimento do titular, e quem recebe são os beneficiários indicados na apólice. Antigamente, pela nossa cultura, isso criava um certo mal-estar na hora da contratação, mas com o acesso à informação dos últimos anos isso tem mudado, e o seguro está atingindo uma classe antes não contemplada. No seguro de vida em vida, o próprio segurado recebe o valor assim que um médico confirma o diagnóstico de uma das condições previstas em contrato. Não é preciso comprovar afastamento do trabalho, internação ou gasto médico específico: o pagamento é feito em dinheiro, de uma vez, e o segurado decide como usar, seja para tratamento, para substituir a renda enquanto está afastado, ou para qualquer outra necessidade da família.

Quais situações costumam estar cobertas

Cada seguradora define sua própria lista de doenças e eventos cobertos, e é justamente esse detalhe que muda o preço e a qualidade da apólice de uma oferta para outra. As condições mais comuns nas apólices vendidas no Brasil incluem:

  • Câncer em estágio avançado
  • Infarto agudo do miocárdio
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC)
  • Alzheimer e Parkinson
  • Insuficiência renal crônica
  • Hepatite aguda grave
  • Queimaduras graves
  • Invalidez parcial ou total por acidente

O setor é fiscalizado pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), que estabelece prazos e regras para proteger o consumidor. Segundo a própria SUSEP, a seguradora tem até 30 dias, a partir da entrega de toda a documentação exigida, para analisar o pedido e liberar o pagamento da indenização. Por isso, vale um cuidado especial na hora da contratação: entenda todos os detalhes, guarde sempre a documentação e, ao longo da descoberta de uma das condições mencionadas acima, documente todo o processo, desde as primeiras consultas até o diagnóstico final, muitas vezes incluindo uma segunda opinião médica.

A visão de quem vende: entrevista com Breno e Karina Veiga, sócios da Berdine Corretora de Seguros Logo da Berdine Corretora de Seguros
Karina Veiga, sócia da Berdine Corretora de Seguros
Karina Veiga, sócia da Berdine Corretora de Seguros.

A Berdine Corretora de Seguros atua no mercado desde 2010 e é especializada em consultoria de seguros e planejamento financeiro. Nosso trabalho é entender a realidade de cada cliente para oferecer soluções que realmente façam sentido para sua vida, sua família e seu patrimônio.

Ao longo dos anos, percebemos que muitas pessoas contratam seguros pensando apenas na proteção para a família em caso de falecimento, mas desconhecem produtos que podem oferecer suporte financeiro ainda em vida, justamente quando mais precisam. Por isso, buscamos orientar nossos clientes de forma transparente, explicando as coberturas, exclusões e ajudando na escolha da proteção mais adequada para cada perfil.

O que exatamente muda entre o seguro de vida tradicional e o seguro de vida em vida, na prática de quem vai usar?

A principal diferença está no momento em que o benefício pode ser utilizado. No seguro de vida tradicional, a indenização é paga aos beneficiários em caso de falecimento do segurado. Já no chamado "seguro de vida em vida", o próprio segurado pode receber a indenização quando é diagnosticado com uma doença grave prevista na apólice ou em outras situações cobertas pelo contrato.

Na prática, isso significa que a pessoa tem acesso a um recurso financeiro justamente em um momento delicado, quando pode precisar custear tratamentos, medicamentos, adaptações na rotina, afastamento do trabalho ou até mesmo manter as despesas da família durante a recuperação.

É importante destacar que cada seguradora possui regras e coberturas específicas. Por isso, a leitura das condições gerais e a orientação de um corretor são fundamentais.

Quais são as doenças ou situações que mais geram pedidos de indenização em vida hoje?

As doenças graves lideram os pedidos de indenização em vida. Entre elas, os casos mais frequentes costumam envolver câncer, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal grave, transplante de órgãos e algumas doenças neurológicas.

Outra cobertura bastante acionada é o DIT (Diária por Incapacidade Temporária). Nessa modalidade, o segurado recebe um valor diário quando precisa se afastar temporariamente de suas atividades profissionais por motivo de doença ou acidente coberto pela apólice. É uma proteção muito importante, especialmente para profissionais autônomos e liberais, que muitas vezes dependem exclusivamente da própria renda e podem ter uma queda significativa nos ganhos durante o período de recuperação.

Além dessas coberturas, muitos seguros também oferecem indenização por invalidez permanente decorrente de acidente ou doença, dependendo das condições contratadas. Vale lembrar que cada apólice define exatamente quais doenças e situações estão cobertas e quais critérios médicos precisam ser atendidos para que haja o pagamento da indenização.

Como é definido o valor da indenização e o que mais pesa no cálculo do prêmio mensal?

O valor da indenização é escolhido no momento da contratação, de acordo com a necessidade financeira e o planejamento do cliente. Esse valor deve ser suficiente para oferecer proteção à família ou ao próprio segurado diante de um imprevisto.

Já o valor do prêmio, a mensalidade do seguro, depende de diversos fatores. Entre os principais estão a idade do segurado, o capital segurado contratado, as coberturas escolhidas, a profissão, o estado de saúde informado na proposta e, em alguns casos, hábitos de vida considerados de maior risco. De forma geral, quanto mais jovem a pessoa contrata o seguro, menor tende a ser o custo, além de facilitar a aceitação pela seguradora.

Quais os seguros mais oferecidos no mercado e qual a precaução na hora de contratá-los?

Os seguros de vida atualmente são bastante flexíveis e podem ser personalizados conforme o perfil do cliente. Além da cobertura para morte, é comum encontrar opções com indenização para doenças graves, invalidez, Diária por Incapacidade Temporária (DIT), assistência funeral e diversas assistências adicionais.

A principal precaução é não contratar o seguro apenas pelo menor preço. É fundamental analisar quais coberturas estão incluídas, quais são as exclusões, os períodos de carência, as regras para acionamento do benefício e se o capital segurado realmente atende às necessidades da pessoa ou da família.

Outro ponto essencial é preencher corretamente a declaração de saúde no momento da contratação. Informações incompletas ou incorretas podem comprometer o pagamento da indenização no futuro. O seguro deve ser visto como um instrumento de planejamento financeiro e proteção patrimonial. Quando bem contratado, ele proporciona tranquilidade e segurança justamente nos momentos mais difíceis.

Quanto custa e o que pesa no preço

O valor do prêmio mensal depende de idade, histórico de saúde, valor do capital segurado e da lista de coberturas escolhida. Quanto mais nova e mais saudável a pessoa no momento da contratação, menor tende a ser o custo, porque o risco calculado pela seguradora é menor. Por isso, especialistas do setor costumam recomendar contratar esse tipo de proteção o quanto antes, e não esperar o momento em que ela já seria mais necessária, mas também mais cara ou até inacessível, dependendo do histórico de saúde. Uma ideia interessante, dentro dessa visão, é pensar em um investimento cujo rendimento passivo cubra o custo desse seguro: assim, ele deixa de ser apenas um seguro e passa a ser, também, um investimento de vida, em vida.

A visão de quem emprega: o seguro de vida em vida no dia a dia da micro e pequena empresa

Para quem é dono do próprio negócio, o afastamento por doença grave não é só uma questão pessoal. Muitas vezes é o próprio empresário quem sustenta a operação, negocia com fornecedores e responde pelas contas. Quando essa pessoa fica de fora por meses, sem planejamento prévio, o impacto pode ser tão grande quanto o problema de saúde em si.

A visão de quem representa a classe empresarial: entrevista com Joaquim Carvalho, presidente da FEMICRO/DF (Federação das Associações e Sindicatos da Micro e Pequena Empresa do Distrito Federal e Entorno, entidade do Sistema COMICRO)
Joaquim Carvalho, presidente da FEMICRO/DF
Joaquim Carvalho, presidente da FEMICRO/DF.

Pela experiência da FEMICRO/DF com micro e pequenos empresários, o seguro de vida em vida costuma entrar no planejamento do negócio, ou ainda é visto como gasto pessoal?

Infelizmente, ainda é pouco conhecido e raramente faz parte do planejamento empresarial. A maioria dos pequenos empresários, e nem digo os MEI, continua enxergando o seguro de vida como uma decisão pessoal, separada da empresa, e não como um instrumento de continuidade do negócio.

Essa realidade merece atenção especialmente no Distrito Federal, onde existem cerca de 350 mil empresas, fora o entorno, sendo a maioria formada por pequenos negócios. Quando o proprietário toca o negócio e concentra decisões, relacionamento com clientes, fornecedores e instituições financeiras, proteger sua pessoa significa proteger a empresa, os empregos e as famílias que dependem dele. É necessária essa conscientização.

A baixa adesão não acontece apenas entre empresários. Segundo dados coletados por nossa assessoria, a pesquisa Fenaprevi/Datafolha apontou que 82% dos brasileiros adultos não possuíam seguro de vida, o que demonstra que ainda temos uma cultura de proteção muito limitada no país.

Uma coisa muito importante para esclarecer: seguro não precisa ser apenas para quem morre. Dependendo da apólice, pode oferecer coberturas para doenças graves, incapacidade temporária, invalidez e perda de renda. Portanto, ele deveria ser analisado dentro do planejamento financeiro da empresa, junto com a reserva de emergência, a sucessão empresarial e o planejamento de continuidade do negócio.

Quando um sócio ou empresário-chave fica afastado por doença grave, o que normalmente acontece com a empresa que não se planejou para isso?

Em uma pequena empresa, o proprietário normalmente não é apenas o dono. Ele é quem vende, negocia, é o gestor financeiro, o responsável pelas autorizações e, muitas vezes, a pessoa que mantém o relacionamento com os maiores clientes: um faz-tudo, o bombril da empresa.

Quando esse empresário se afasta sem que exista uma estrutura preparada, a empresa perde velocidade de decisão, perde faturamento, atrasa pagamentos e folha de pagamento, compromete entregas e transmite insegurança para funcionários, fornecedores e clientes.

Esse problema aparece de forma muito concreta no Distrito Federal. Nossa assessoria identificou, num relatório da ABDI sobre empresas participantes do projeto Exporta DF, uma forte concentração de atividades em poucas pessoas e processos altamente dependentes dos próprios proprietários. Segundo o documento, essa dependência provocava atrasos na comunicação, nas agendas e no andamento das atividades.

Em casos graves, a empresa precisa recorrer a crédito caro, perde contratos importantes, entra em conflito entre sócios ou familiares e pode até encerrar suas atividades. Por isso, o seguro deve ser levado em conta e fazer parte de uma estrutura mais ampla, que inclua processos documentados, delegação de funções, reserva financeira, governança e plano de sucessão.

Que conselho você daria para um empresário que acha que "seguro é coisa para quem tem medo de morrer"?

Conselho é algo complicado de se dar, mas eu digo que seguro não é uma decisão baseada no medo de morrer. É uma decisão baseada na responsabilidade de continuar protegendo aquilo que você, como empresário, está construindo, de resguardar o seu negócio. Morrer, todo mundo vai.

Antes mesmo de pensar em bater as botas, precisamos considerar situações que podem acontecer durante a vida: uma doença grave, um acidente, uma invalidez ou um afastamento de vários meses. A própria SUSEP esclarece que os seguros de pessoas podem oferecer coberturas para incapacidade temporária, doenças graves e perda de renda, além das coberturas tradicionais de morte e invalidez.

A pergunta que você, meu amigo empresário, deve se fazer não é apenas "o que vai acontecer quando eu morrer?". A pergunta mais imediata é: "se eu ficar seis meses de cama, se eu tiver um infarto, sei lá, se eu não puder trabalhar, como minha família vai fazer? Como vou pagar as contas? E meu negócio, vai resistir, vai sobreviver?" Pensa.

O seguro não vai substituir uma boa administração, mas pode dar liquidez e tempo para que a família, os sócios e quem precisa tomem decisões com tranquilidade, sem precisar vender patrimônio, desmontar a empresa às pressas ou, principalmente, recorrer a crédito urgente e caro.

Quem tem família, funcionários, sócios e boleto para pagar não deve entender a proteção como medo. Deve entendê-la como responsabilidade e investimento.

Na sua visão, o que falta para as micro e pequenas empresas brasileiras levarem esse tipo de proteção mais a sério?

Falta informação, principalmente educação financeira e securitária, apresentada de maneira simples e próxima da realidade do pequeno empresário.

É necessário mostrar, por meio de exemplos concretos, o quanto a empresa depende financeiramente do trabalho e do esforço do dono, e qual é o impacto de um afastamento de 30, 90, 180 dias, ou até um ano. Muitas vezes o empresário olha só para o valor mensal da apólice, mas não calcula o custo que teria se ficasse impossibilitado de trabalhar. É preciso abrir os olhos e fazer as contas.

Também precisamos de ações conjuntas envolvendo entidades empresariais, contadores, corretores, seguradoras e instituições de apoio aos pequenos negócios. A pesquisa que mostra que 82% dos brasileiros adultos não possuem seguro de vida escancara o tamanho desse desafio de conscientização, e isso vale para todas as áreas: quanto mais cedo, mais jovem o empresário, melhor.

Apesar dessa baixa adesão, o segmento de seguros de pessoas movimentou R$ 78,8 bilhões em prêmios em 2025, um crescimento de 8,3% sobre o ano anterior. Isso mostra que o mercado está avançando, mas a proteção ainda precisa chegar de forma mais acessível e compreensível aos pequenos empresários. O seguro não deve ser apresentado como um gasto improdutivo, nem, tecnicamente, como um simples investimento financeiro. Ele é uma despesa estratégica de proteção e continuidade. O valor pode ser previsto no orçamento e no fluxo de caixa da empresa, sempre com orientação contábil, jurídica e securitária adequada à modalidade contratada.

A FEMICRO/DF, sempre que possível, promove esse tipo de conscientização em seus eventos, porque entendemos que quando o dono, quem põe a mão na massa, falta, o pequeno negócio que gera emprego, renda e impostos vai sofrer, vai faltar, e isso complica toda a cadeia produtiva e financeira de Brasília, das cidades satélites e do entorno. E isso, para mim, é uma questão nacional.

Precisamos mudar a pergunta de "quanto custa ter um seguro?" para "quanto pode custar para a empresa ficar sem sua pessoa mais importante?"

E quem é funcionário público? A ideia de "estabilidade" cobre tudo?

Existe uma percepção comum de que quem tem estabilidade no serviço público está automaticamente protegido, e por isso esse tipo de seguro seria dispensável. Só que estabilidade no cargo não é o mesmo que proteção financeira em caso de doença grave. Os custos de tratamento, adaptação da casa, deslocamento e apoio à família continuam existindo, estabilidade ou não.

A visão de quem vive isso todo dia: entrevista com [nome], professora da rede municipal

Muita gente acha que quem é servidor público não precisa de seguro de vida porque "já tem estabilidade". Você via dessa forma antes de pensar sobre o assunto?

[Aguardando resposta]

Como professora, quais riscos do dia a dia te fizeram pensar em algum tipo de proteção extra além do que o serviço público oferece?

[Aguardando resposta]

O que pesou mais na sua decisão, ou na sua dúvida, sobre contratar ou não um seguro de vida com cobertura em vida?

[Aguardando resposta]

O que você diria para uma colega professora que ainda não pensou nisso?

[Aguardando resposta]

Vale a pena contratar em 2026?

Não existe resposta única, porque depende da fase de vida, da renda disponível e de quem depende financeiramente do segurado. Mas alguns pontos ajudam a decidir:

  1. Compare a lista de doenças e eventos cobertos entre pelo menos três seguradoras antes de contratar. Nem toda apólice barata cobre o mesmo que uma mais completa.
  2. Verifique o prazo de carência, o período em que determinadas coberturas ainda não valem, antes de assinar.
  3. Calcule o valor do capital segurado com base no que sua família precisaria para manter o padrão de vida por pelo menos 12 meses sem a sua renda.
  4. Revise a apólice a cada dois ou três anos, porque renda, dívidas e responsabilidades mudam com o tempo.

O que posso dizer é que seguro é sempre bom. Melhor se você nunca precisar usar, mas, caso a necessidade apareça, é bem melhor ter do que se arrepender por não ter. Então pense, veja a sua real situação, faça um planejamento e coloque isso na sua lista de prioridades. Se organize e contrate um seguro. E pense também numa forma de criar ativos que paguem, sozinhos, o custo desse seguro.

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Fontes consultadas neste artigo: